Reza a História que naquele local existiu uma fonte considerada santa e milagrosa por ter aparecido junto dela uma imagem da Virgem Maria. E logo ali se construiu uma ermida dedicada a Nossa Senhora dos Prazeres. A ermida deu nome a uma extensa quinta que, já no século XVI, serviu de refúgio a muitos enfermos das várias epidemias que então assolaram a cidade de Lisboa. Coincidência?
Era terra de hortas, vinhas e pomares e estava abrangida pela designação de Campolide, pertencendo à freguesia de Santos. No século XVIII (1741) criou-se a freguesia de Santa Isabel e aquele espaço foi aí integrado. Desde 1959 pertence à nova freguesia de Santo Condestável.
Nesses tempos mais antigos (séculos XVI, XVII e XVIII) foi aquele local procurado por alguns nobres para aí estabelecerem as suas quintas e casas de campo. Eram terrenos arejados, perto da Ribeira de Alcântara e com uma bela vista para o Tejo, como ainda hoje se pode admirar junto ao muro do lado poente do cemitério. Além disso, não ficava muito longe do Paço Real de Alcântara, tão do agrado do rei D.Pedro II.
Ali bem perto (na actual rua do Patrocínio) ficava o Convento da Boa Morte. Outra coincidência? Mas o convento acabou com a extinção das Ordens Religiosas (1834) e o edifício foi vendido a um particular.
A implantação geográfica do Cemitério dos Prazeres, servindo os bairros mais ricos da cidade, fez com que, desde cedo, aí fossem construídos os jazigos das famílias mais importantes da capital. Daí a ostentação de riqueza que em muitos deles sobressai. É surpreendente observar as diferentes atitudes perante a Morte, que nos revela a arquitectura fúnebre. Desde as mais simples campas ou modestos jazigos, às mais complicadas capelas e esculturas ostentando riqueza, poder e (muitas vezes também) mau gosto, tudo ali se mistura. Na Morte, como na Vida, o homem continua a querer ser diferente do seu semelhante.
É interessante visitar este espaço de 11 hectares, cortado por inúmeras ruas ladeadas de enormes ciprestes, onde o silêncio e a tranquilidade imperam. O sossego convida à contemplação e todas aquelas construções nos falam do passado, das pessoas que as mandaram fazer, das que partiram para sempre, das que ficaram com a saudade. "A fé conserva unidos os que a Morte separa", pode ler-se numa lápide.
Mas é um facto que passear naquele jardim é como percorrer um "museu a céu aberto" que nos conta muito da História de Portugal dos dois últimos séculos. Aproveitando este enorme manancial arquitectónico e escultórico, a Câmara Municipal de Lisboa organiza visitas guiadas destinadas ao público em geral ou instituições, explorando diferentes temas como, por exemplo, a história do Cemitério, maçonaria, arquitectura funerária, heráldica, morte e imortalidade, estatuária, símbolos profissionais, grandes Homens e jazigo Palmela. Além disso, existe um pequeno mas interessante Museu, situado na própria Capela do Cemitério, que expõe objectos recolhidos em jazigos prescritos dos vários cemitérios da cidade e onde também pode ser vista a antiga sala de autópsias e a sala do acervo.
Teresa Pinto Leite
Chamar "Prazeres" a um cemitério pode, de certo modo, parecer uma ironia... mas tudo tem a sua razão de ser. O Cemitério Ocidental de Lisboa - ou dos Prazeres - foi aberto nos terrenos de uma quinta de que herdou o nome. Construído entre 1833 e 1835, na sequência de uma violenta epidemia de cólera, destinava-se a terminar, finalmente, com os enterros nasigrejas, nas capelas ou em claustros de conventos. Vária legislação já tinha sido feita nesse sentido (desde 1805) mas não passou de letra morta.
2014-01-07
Reza a História que naquele local existiu uma fonte considerada santa e milagrosa por ter aparecido junto dela uma imagem da Virgem Maria. E logo ali se construiu uma ermida dedicada a Nossa Senhora dos Prazeres. A ermida deu nome a uma extensa quinta que, já no século XVI, serviu de refúgio a muitos enfermos das várias epidemias que então assolaram a cidade de Lisboa. Coincidência?
Era terra de hortas, vinhas e pomares e estava abrangida pela designação de Campolide, pertencendo à freguesia de Santos. No século XVIII (1741) criou-se a freguesia de Santa Isabel e aquele espaço foi aí integrado. Desde 1959 pertence à nova freguesia de Santo Condestável.
Nesses tempos mais antigos (séculos XVI, XVII e XVIII) foi aquele local procurado por alguns nobres para aí estabelecerem as suas quintas e casas de campo. Eram terrenos arejados, perto da Ribeira de Alcântara e com uma bela vista para o Tejo, como ainda hoje se pode admirar junto ao muro do lado poente do cemitério. Além disso, não ficava muito longe do Paço Real de Alcântara, tão do agrado do rei D.Pedro II.
Ali bem perto (na actual rua do Patrocínio) ficava o Convento da Boa Morte. Outra coincidência? Mas o convento acabou com a extinção das Ordens Religiosas (1834) e o edifício foi vendido a um particular.
A implantação geográfica do Cemitério dos Prazeres, servindo os bairros mais ricos da cidade, fez com que, desde cedo, aí fossem construídos os jazigos das famílias mais importantes da capital. Daí a ostentação de riqueza que em muitos deles sobressai. É surpreendente observar as diferentes atitudes perante a Morte, que nos revela a arquitectura fúnebre. Desde as mais simples campas ou modestos jazigos, às mais complicadas capelas e esculturas ostentando riqueza, poder e (muitas vezes também) mau gosto, tudo ali se mistura. Na Morte, como na Vida, o homem continua a querer ser diferente do seu semelhante.
É interessante visitar este espaço de 11 hectares, cortado por inúmeras ruas ladeadas de enormes ciprestes, onde o silêncio e a tranquilidade imperam. O sossego convida à contemplação e todas aquelas construções nos falam do passado, das pessoas que as mandaram fazer, das que partiram para sempre, das que ficaram com a saudade. "A fé conserva unidos os que a Morte separa", pode ler-se numa lápide.
Mas é um facto que passear naquele jardim é como percorrer um "museu a céu aberto" que nos conta muito da História de Portugal dos dois últimos séculos. Aproveitando este enorme manancial arquitectónico e escultórico, a Câmara Municipal de Lisboa organiza visitas guiadas destinadas ao público em geral ou instituições, explorando diferentes temas como, por exemplo, a história do Cemitério, maçonaria, arquitectura funerária, heráldica, morte e imortalidade, estatuária, símbolos profissionais, grandes Homens e jazigo Palmela. Além disso, existe um pequeno mas interessante Museu, situado na própria Capela do Cemitério, que expõe objectos recolhidos em jazigos prescritos dos vários cemitérios da cidade e onde também pode ser vista a antiga sala de autópsias e a sala do acervo.
Teresa Pinto Leite
Chamar "Prazeres" a um cemitério pode, de certo modo, parecer uma ironia... mas tudo tem a sua razão de ser. O Cemitério Ocidental de Lisboa - ou dos Prazeres - foi aberto nos terrenos de uma quinta de que herdou o nome. Construído entre 1833 e 1835, na sequência de uma violenta epidemia de cólera, destinava-se a terminar, finalmente, com os enterros nasigrejas, nas capelas ou em claustros de conventos. Vária legislação já tinha sido feita nesse sentido (desde 1805) mas não passou de letra morta.
2014-01-07